Aline Mendonça
alinemp1980@gmail.com
Na solidão do campo, os faroleiros de Lobato vigiam, presos à monotonia, e acabam tragados por um destino cruel: a violência que brota da solidão e da incompreensão. Troque-se o cenário: a cidade, em vez do farol; as ruas, em vez do mar. O enredo não muda tanto assim.
Hoje, os faroleiros urbanos somos nós. Cercados por muros, câmeras e grades, observamos a vida passar da janela, enquanto a violência ronda silenciosa. Notícias de assaltos, brigas, feminicídios e mortes se repetem com a mesma cadência da luz que os faróis lançavam à escuridão.
Assim como no conto, onde o isolamento desemboca em tragédia, também na cidade a ausência de diálogo e de empatia fermenta conflitos. A violência urbana não é só estatística: é a dor que se espalha, é a pressa que nos torna indiferentes, é o medo que nos separa.
Talvez a lição dos faroleiros de Lobato seja justamente essa: quando o homem se aparta do outro, seja na solidão da mata ou no concreto da metrópole, a violência se instala como única linguagem possível.
E, no fundo, continuamos todos faroleiros — tentando iluminar um pouco da escuridão que insiste em cercar a vida.
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